A hipocrisia da comoção automática e interesseira

O inaceitável assassinato da jovem Ana Paula Viana Rodrigues, de apenas 19 anos, ocorrido em Santana, no Amapá, como tantos outros crimes brutais que se repetem pelo país, comove, revolta e deixa perplexa a opinião pública.

Neste momento de dor, não faltam manifestações sinceras diante da irreparável perda. Elas vêm da família devastada, dos amigos, dos colegas da universidade e da comunidade que convivia com a jovem estudante da Universidade Federal do Amapá. São expressões legítimas de luto, indignação e solidariedade humana.

Mas também se verifica, infelizmente, o fenômeno recorrente das condolências oportunistas e protocolares — aquelas manifestações públicas carregadas de formalidade e conveniência política, que surgem apenas quando a tragédia já está consumada.

São palavras que muitas vezes escondem hipocrisia e interesse pessoal.

Antes ausentes na solução do grande problema que é a segurança pública no Brasil, essas mesmas vozes surgem rapidamente para lamentar a morte que poderia — e deveria — ter sido evitada.

Ana Paula morreu, em grande parte, por falhas evidentes de um sistema que não cumpre aquilo que promete. O homem que confessou o crime, Cláudio Pacheco, conhecido como “Coringa”, já tinha histórico de violência e havia matado outra mulher em 2018. Condenado, deveria estar cumprindo pena em regime fechado. Em vez disso, estava foragido do sistema prisional após não retornar de uma saída autorizada, circulando livremente pelas ruas de Santana.

Ou seja: para o sistema, ele estava preso.
Na prática, estava solto.

Nesse imbróglio institucional, é justo reconhecer o trabalho investigativo da polícia, que conseguiu identificar e prender rapidamente o autor do crime após o assassinato. Também é legítimo que membros do Ministério Público busquem explicações e responsabilidades no funcionamento da execução penal.

Mas, fora esses poucos atores institucionais que agem depois da tragédia, o restante muitas vezes se resume ao velho espetáculo do “oba-oba” público: discursos indignados, notas de pesar, vídeos nas redes sociais e promessas genéricas.

Grande parte dessas vozes vem de quem vive protegido em condomínios fechados, dispõe de segurança privada, carros blindados e outros meios para se proteger de uma violência que, na prática, recai sobre a população comum — trabalhadores, estudantes, jovens como Ana Paula.

É duro afirmar, mas é necessário: antes que outra vida seja perdida, impõe-se uma mudança de postura. Segurança pública não se faz com manifestações tardias de pesar, nem com indignação performática após a tragédia consumada. Faz-se com responsabilidade institucional, cumprimento rigoroso da lei e compromisso real com a proteção da sociedade.

Chega de negligência travestida de burocracia.
Chega de impunidade tolerada.
Chega de transformar tragédias humanas em palco de conveniências.

Se as vítimas pudessem falar, talvez dissessem algo simples e devastador:

“Não chorem por mim, hipócritas e oportunistas de plantão trabalhem para evitar as próximas Ana Paulas.”

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