Na data que registrou exatos 13 anos dessa tragédia, cheia de omissões, medidas estranhas, laudos suspeitos e nenhuma solução concreta, famílias dos mortos aciona a justiça criminal do Amapá.
Nova ação protocolada, reacende escândalo de mortes evitáveis no Amapá e expõe abandono, omissão e impunidade
Treze anos depois de uma tragédia anunciada, o caso Anglo Ferrous volta ao centro do debate judicial no Amapá — não por iniciativa do Estado, mas pela insistência das famílias que seguem à espera de justiça.
O escritório do advogado Paulo Campelo, representando os familiares das vítimas do desmoronamento do porto de Santana, ingressou em março de 2026 com uma nova ação indenizatória de repercussão penal contra a antiga diretoria da mineradora. O objetivo é claro: romper o ciclo de inércia institucional e responsabilizar, de forma efetiva, os que tinham poder de decisão à época do desastre.
O crime que não terminou
O colapso ocorrido em 2013 matou seis trabalhadores. Um deles jamais foi encontrado.
Até hoje, há a suspeita de que seu corpo permaneça sob milhares de toneladas de estruturas metálicas, equipamentos e minério que afundaram no leito do Rio Amazonas — um cenário que ultrapassa a tragédia humana e se transforma em símbolo permanente de abandono.
Mais do que um acidente do passado, trata-se de um desastre em curso.
Os destroços continuam no fundo do rio. A poluição persiste. E o silêncio institucional também.
Indenização sem solução
Valores milionários foram pagos ao longo dos anos — cerca de R$ 50 milhões, sendo aproximadamente R$ 30 milhões destinados ao município de Santana. No entanto, a ausência de medidas concretas para remoção dos destroços escancara um problema estrutural: o dinheiro chegou, mas a solução nunca veio.
A estrutura colapsada permanece onde caiu.
E com ela, permanece também a evidência de que o poder público falhou em dar resposta à altura da gravidade do desastre.
Justiça tardia, mas necessária
A nova ação busca mais do que reparação financeira. Ela tenta reposicionar o caso no campo penal, com base em entendimentos consolidados em tragédias recentes no Brasil, como os desastres de Brumadinho e o caso da Boate Kiss.
A estratégia jurídica é clara: enquadrar a conduta dos gestores como homicídio doloso, sustentando que havia pleno conhecimento do risco e que, ainda assim, nada foi feito para evitá-lo.
Se acolhida, essa tese pode levar dirigentes da empresa — inclusive com possibilidade de convocação internacional — a responderem diretamente perante a Justiça brasileira, inclusive em júri popular.

Omissão que atravessa o tempo
O mais grave, porém, não está apenas no passado.
A omissão continua.
Nenhuma ação efetiva foi implementada para retirada dos destroços, mitigação ambiental ou encerramento digno do caso para as famílias. A viúva de uma das vítimas ainda vive sem poder sepultar o marido — uma dor que ultrapassa qualquer cálculo indenizatório.
O Estado, nesse contexto, não apenas falhou — ele se ausentou.
Um alerta para o futuro
O caso Anglo-Brasileira deixa um recado direto e incômodo diante de novos projetos de exploração na chamada margem equatorial brasileira.
Se um desastre dessa magnitude ocorreu em uma operação portuária terrestre, com riscos já conhecidos e documentados, o que pode acontecer em empreendimentos ainda mais complexos, como a exploração de petróleo em áreas sensíveis da costa amazônica?
A pergunta não é retórica — é preventiva.
Memória, justiça e pressão
A ação proposta surge como tentativa de resgatar aquilo que o tempo e a omissão quase apagaram: a memória das vítimas.
Mais do que uma disputa jurídica, trata-se de um enfrentamento simbólico contra a naturalização de tragédias evitáveis.
Porque o que está em jogo não é apenas responsabilizar o passado — é impedir que ele se repita.
E, sobretudo, lembrar que sob as águas do Rio Amazonas ainda repousa não apenas ferro e concreto, mas a prova concreta de que o descaso também mata — e continua matando.