De um amigo, profissional e cidadão do Amapá
Caro governador Clécio Luís,
Escrevo-lhe não como adversário, mas como alguém que acompanhou sua trajetória, respeita sua história e reconhece seus méritos. Seus oito anos à frente da Prefeitura de Macapá ajudaram, sim, a preparar o terreno para que hoje você estivesse no comando do Estado. Mas é justamente por isso que afirmo, sem rodeios: esse capital político pode se perder rapidamente se não houver mudanças profundas no seu entorno e na forma como o seu governo se comunica, se posiciona e se impõe.
Há um risco real — e subestimado — no cenário que se desenha para os próximos meses. Seu principal concorrente pode vir a ser condenado, preso ou declarado inelegível. À primeira vista, alguns dos seus assessores tratam isso como vantagem. É aí que mora o erro grave. A história eleitoral brasileira já mostrou, mais de uma vez, que a ausência forçada de um candidato não elimina seu eleitorado. Pelo contrário: abre espaço para o voto de protesto, para a vitimização e para a transferência simbólica de capital político a um substituto escolhido a dedo.
Esse fenômeno já aconteceu. E pode acontecer de novo.
Enquanto isso, parte dos seus apoiadores — que mais parecem dançarinos de ocasião — comete outro erro estratégico ainda mais elementar: a leitura equivocada do eleitorado feminino. Homens podem dançar, expor seus corpos fora de forma e virar “folclore simpático”. Quando uma mulher faz o mesmo, é sexualizada, atacada, desmoralizada. Isso não é detalhe cultural: é política pura.
Esquecem — ou fingem esquecer — que a maioria do eleitorado é feminino. E os sinais já estão dados: uma mulher, sem experiência política relevante, lidera pesquisas ao Senado. Isso não é acaso. É voto feminino, é voto de protesto, é recado claro.
Agora, governador, vamos aos fatos — e eles são incômodos.
O senhor, hoje, se comporta mais como prefeito do que como governador. Ao mesmo tempo, o prefeito da capital — seu principal concorrente — age como governador desde sempre. A estratégia dele é simples e correta: governa onde está 80% da população do Estado. Assim, ocupa simbolicamente o lugar de “governador do Amapá real”, enquanto o senhor se vê, muitas vezes, envolvido em pequenos projetos, agendas fragmentadas e gestos voltados mais para agradar liderados e padrinhos do que para afirmar liderança.
Sua linguagem corporal, seus gestos e suas falas frequentemente revelam alguém que ainda busca validação, que se explica demais, que pede licença para exercer o poder. Governador não pede licença: governa.
Há também erros claros de agenda e simbologia.
A pauta não é petróleo — é bioeconomia, turismo, conectividade, Amazônia viva, sempre foi. Internet para todos foi proposta no início do seu governo. Não avançou. Quando a Prefeitura implementa algo semelhante, o Estado corre atrás. Resultado? O Wi-Fi vira “do povo”, mas com a marca do outro.
Carnaval no Rio de Janeiro? Mangueira lá? Se a intenção fosse dialogar com o sentimento popular, trouxesse a Mangueira para Macapá. O simbolismo seria outro.
As passarelas são firmes, sim. Mas não são seguras. Falta iluminação adequada, proteção lateral, acessibilidade universal e câmeras integradas à segurança pública. Obra firme sem segurança é meia obra — e meia obra não gera gratidão eleitoral.
Do ponto de vista do marketing político, o amadorismo é evidente. Obras como a Ponte Sérgio Arruda, a Ponte Firme ou a Expofeira são vendidas como realizações do seu governo, mas logo surgem outros atores reivindicando a paternidade. Resultado: o governador vira despachante de obras alheias.
Isso é ainda mais grave quando se lembra que muitos desses “parceiros” só enfrentarão as urnas em 2030. O senhor será testado agora.
Tudo deveria girar em torno de Clécio: discurso, narrativa, obra, imagem, reconhecimento. Mas sua equipe — embora formada por pessoas corretas — não tem tarimba para o jogo pesado que está em curso. Erram, se omitem e parecem satisfeitas com o salário, as fotos e a proximidade com o poder. Ideias voluntárias, propostas consistentes e contribuições externas vêm sendo barradas desde 2023. O governo virou, na prática, um governo de um homem só — e isso não é virtude, é vulnerabilidade.
A ironia maior é que uma das ideias desprezadas no início do seu mandato — o Wi-Fi social — hoje é executada pela Prefeitura, inclusive por quem antes a ignorou quando estava no seu governo. Os fatos falam.
Governador, digo isso com franqueza e respeito: o senhor é, de longe, o melhor quadro para chefiar o Executivo estadual hoje. Mas liderança não é apenas capacidade técnica ou boa intenção. É leitura de cenário, imposição de narrativa, coragem para romper cercas internas e, sobretudo, compreensão do tempo político.
Ainda há tempo. Mas ele é curto.
De um amigo profissional,
de um cidadão do Amapá,
de alguém que prefere alertar agora
a lamentar depois.
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