Por Dantas Filho
A mistura Indevida da cultura popular com eleição, deu ruim na Sapucai.
10 milhões jogados fora: quem deu mais para perder o carnaval?
Essa pergunta tem como resposta a constatação de que
misturar política com carnaval quase nunca dá samba. Quando envolve dinheiro público, então, o enredo costuma desafinar — e foi exatamente isso que se viu no recente episódio envolvendo a Mangueira, o Amapá e o uso controverso de recursos públicos em nome de homenagens, marketing político e resultados que simplesmente não vieram.
De um lado, o governo federal, que por meio do Ministério do Turismo destinou cerca de R$ 1 milhão a uma escola de samba de Niterói, que pretendeu homenagear o presidente da república em ano eleitoral, alterando a isononia da disputa em relação aos demais pré candidatos ao Planalto. Resultado: décimo lugar e rebaixamento. Do outro, o Amapá, que teria investido algo em torno de R$ 10 milhões, pagos antecipadamente, em uma homenagem ao mestre SACACA . Resultado: sexto lugar. Um vexame a quatro degraus também do rebaixamento.
Em termos objetivos, ambos perderam — financeiramente, simbolicamente e politicamente.
A Prefeitura do Rio promete nesse ano de 2026, cerca de R$ 2 milhões à escola campeã, enquanto a Liesa ( Liga das escolas cariocas) distribui aproximadamente R$ 2,5 milhões para cada escola participante. Valores, 5 vezes menores do que o gasto pelo Amapá, com o enredo, sob encomenda, a distância.
É preciso lembrar que essas grandes agremiações já são ricas e poderosas, pois são apoiadas por cartéis, patrocinadores, recursos de seus eventos durante o ano inteiro.
Além disso ainda recebem outros grandes recursos que sustentam o espetáculo vindos majoritariamente do chamado direito de arena, comercializado há décadas de forma perene pela Rede Globo, que transmite o evento para o Brasil e o mundo. Nada disso é segredo.


O problema começa quando se tenta transformar homenagem cultural em produto comprado. O mestre SACACA merece, sem dúvida, todo reconhecimento possível. Sua trajetória e importância para o Amapá são inquestionáveis. Mas homenagem paga não é cultura — vira negócio. E, nesse formato, corre o risco de parecer diploma de churrascaria: pagou, levou.
Se a intenção fosse promover o Amapá no maior palco cultural do país, o tema óbvio estaria ali, à vista de todos: o petróleo da Margem Equatorial, cuja exploração se avizinha e pode redefinir o futuro econômico do estado. Optou-se por outro caminho. Por quê?
Circulam versões — e aqui é preciso registrar como versões — de que a escolha do tema teria relação com promessas religiosas, oferendas simbólicas ou pactos políticos ligados ao grupo do atual governador, mirando a eleição de 2026. Não há prova pública disso. Mas o simples fato de essa narrativa ganhar força já revela o tamanho do erro de comunicação e de gestão.
Nada contra a fé, a religiosidade ou as tradições afro-brasileiras. Pelo contrário. O problema surge quando dinheiro público, que não tem religião, é usado sem transparência, em um estado que enfrenta dívidas milionárias na saúde, inclusive com hospital credenciado que recentemente pediu bloqueio judicial de contas para receber cerca de R$ 10 milhões devidos, só nos últimos 2 meses.

O contraste é brutal. Enquanto faltam recursos para áreas essenciais, milhões são aplicados em uma ação de marketing desastrosa que não trouxe retorno cultural, político nem simbólico. O resultado foi tão frustrante que o governador passou a ser chamado, nos bastidores, de “pé frio”, o Mick Jagger da política. A piada corre solta: se ele torcer pela Seleção Brasileira na próxima Copa, agora no meio do ano, a já combalida equipe do técnico Ancelotti talvez nem se classifique.
Há um princípio básico que parece ter sido ignorado: quando existe mérito, não é preciso pagar por reconhecimento. O que se viu foi o oposto — uma ação percebida como artificial, personalista e, para muitos, inoportuna.
O efeito colateral é ainda mais grave. Ao associar uma figura histórica como o SACACA a disputas políticas, interesses comerciais ou supostos rituais religiosos eleitorais secretos, macula-se tanto a imagem do homenageado quanto das religiões tradicionais, além de expor o poder público a suspeitas desnecessárias. Em tempos de escândalos internacionais envolvendo poder, dinheiro e falta de transparência — como os casos recentes que voltaram ao noticiário mundial — esse tipo de associação só piora o ambiente político.
No balanço final, o enredo é simples e triste:
– R$ 10 milhões do Amapá, sexto lugar.
– R$ 1 milhão do governo Lula, décimo lugar e rebaixamento.
Dinheiro público jogado fora aqui e lá.
O carnaval passou. A conta ficou.
E o samba, infelizmente, não venceu.