Deus, o verdadeiro, não é idiota

A polarização política no Brasil, quando empurrada para o terreno da religião, produz um de seus capítulos mais perigosos: o fanatismo travestido de fé. Líderes e pseudolíderes religiosos tentam transformar uma disputa política em guerra santa, como se o país estivesse dividido entre “os de Deus” e “os do diabo”. Isso é uma fraude moral e teológica.

Num Estado laico, plural, atravessado por múltiplas crenças, ninguém em sã consciência pode se arrogar o direito de sequestrar Deus para justificar projetos de poder. Deus não é cabo eleitoral. Deus não é escudo para ilegalidades. Deus não é carimbo de santidade para erros humanos. Deus é amor, é paz, é justiça. E, como diz a própria Bíblia, é também fogo devorador quando a hipocrisia tenta se passar por virtude.

A tentativa de transformar Jair Bolsonaro em mártir religioso ignora a própria história recente do país. Collor sofreu impeachment, cumpriu pena, teve sua situação judicial definida, e não se viu sua família insuflar massas contra o Supremo. Dilma foi afastada, e o ministro que presidiu o processo, chegou a integrar o governo Lula.
Aliás, Lula foi preso, aceitou a decisão judicial, não convocou hordas para atacar ministros, não insuflou uma cruzada contra as instituições. Foi solto, concorreu, venceu nas urnas, e a regra do jogo foi respeitada.

A democracia funciona assim: ganha-se e perde-se dentro da lei. O que não pode é exigir rigor para os adversários e indulgência divina para os próprios erros. Se amanhã surgirem provas irrefutáveis contra Lula, que responda como qualquer cidadão. Justiça não tem partido. E muito menos altar.

No caso de Bolsonaro, o que pesa não é apenas o processo, mas o comportamento. Quem diz que vai fugir, que não vai se entregar, que prefere uma embaixada à cadeia, força o Estado a aplicar a lei com mais rigor. Não é perseguição: é consequência. A sentença transitada em julgado não é opinião, é fato jurídico.

Paradoxalmente, quem mais contribui para manter Bolsonaro atrás das grades é o barulho de sua própria trupe: o fanatismo, a histeria, a tentativa de deslegitimar o Judiciário, a Constituição e as regras do jogo. Parte da família e dos correligionários parece menos preocupada com a situação pessoal dele e mais interessada em transformar a prisão em palanque, de olho nas próximas eleições e na herança simbólica de seu capital político.

Deus não se orienta por gritos, nem por hashtags, nem por discursos inflamados em púlpitos eletrônicos. Deus não se presta a essa conversa fiada. Deus é justiça. E justiça, quando funciona, não escolhe lado ideológico, escolhe provas, leis e procedimentos.

Enquanto não se compreender que a democracia exige respeito às instituições tanto na vitória quanto na derrota, continuaremos presos a esse ciclo de idolatria política, onde líderes são tratados como messias e processos judiciais como perseguição divina.

No fim, o resto é ruído. Deus não é idiota. A lei segue seu curso. A política segue seu ciclo. E o Brasil só amadurecerá quando parar de confundir fé com fanatismo e justiça com torcida organizada.

Opinião.
Texto:
Dantas Filho
Editor

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