80% das obras realizadas em Macapá dependem de verbas estaduais e federais — mas a prefeitura insiste em vender a fantasia da autossuficiência
A narrativa oficial da Prefeitura de Macapá tenta sustentar a imagem de uma gestão autossuficiente, robusta, capaz de produzir obras e realizações como se dispusesse de um cofre próprio inesgotável. Mas a realidade, sustentada por números, cruzamentos orçamentários e observação direta das obras em execução, aponta para o oposto: cerca de 80% de todas as intervenções estruturais realizadas na capital nos últimos três anos contam com recursos estaduais ou federais — diretos, indiretos ou vinculados.
A discrepância entre discurso e verdade material é evidente. Macapá vive, há décadas, um quadro em que a máquina municipal depende estruturalmente das transferências constitucionais, das emendas parlamentares e dos grandes programas nacionais e estaduais para erguer escolas, pavimentar vias, ampliar unidades de saúde e manter a infraestrutura básica em pé. Ainda assim, a comunicação oficial municipal costuma se apropriar politicamente dessas obras, omitindo deliberadamente a origem dos recursos.
Enquanto o Governo do Estado assume a linha de frente em obras de impacto — novos hospitais, expansão de UPAs, pavimentação em larga escala, modernização viária e construção de equipamentos públicos — e o Governo Federal injeta recursos robustos via PAC, Saúde, Educação e Desenvolvimento Regional, a prefeitura limita-se a participar como executora ou receptora dos investimentos. Porém, vende à população a ideia de que esses projetos seriam fruto de uma suposta “capacidade municipal de investimento”.
O quadro de Macapá é claro: sem os repasses estaduais e federais, a cidade simplesmente não teria fôlego financeiro para tocar a maioria absoluta das obras que hoje são exibidas em outdoors, anúncios e redes sociais municipais. A receita própria do município não acompanha a demanda urbana, e isso não é novidade. A novidade — e o problema — é a tentativa recorrente de distorcer essa realidade, transformando investimentos de outras esferas em propaganda local.

Nova ponte Sérgio Arruda, tem verba coordenada pelo senador Davi Alcolumbre, junto com o deputado Vinicius Gurgel, fato omitido por razões partidárias.
Do ponto de vista econômico, os benefícios das obras são inegáveis: o ciclo de construção e requalificação urbana dos últimos três anos ampliou postos de trabalho, gerou renda e movimentou setores como construção civil, comércio de materiais e serviços. Mas esse avanço tem uma origem clara — e ela não está no caixa municipal.
A verdade essencial, respaldada pelos dados compilados nos últimos anos, é simples e incontornável:
a infraestrutura que transforma Macapá hoje é financiada, majoritariamente, pelo Estado e pela União — e não por uma suposta autonomia financeira da prefeitura.

Na construção da Maternidade Municipal da Zona Norte, tem verbas federais da bancada do Amapá em Brasília, inclusive da ex deputada Leda Sedala.
A insistência em mascarar essa dependência não apenas manipula a narrativa pública, como também esvazia o papel crucial dos governos estadual e federal, que sustentam, técnica e financeiramente, o desenvolvimento da capital.
A população tem o direito de saber quem realmente paga a conta. A fantasia da autossuficiência municipal pode render likes — mas não constrói escolas, não ergue hospitais e não pavimenta ruas.