Dizem as más línguas — aquelas que costumam falar quando o dinheiro começa a andar de primeira classe — que o carnaval não começa quando o surdo bate, mas quando a reserva é confirmada. Fontes de uma EMPRESA de Macapá ligada a passagens, para políticos e personalidades narram uma movimentação intensa: em consutas de hotéis estrelados, restaurantes finos, passeios seletos e outros luxos sondados no período mais concorrido do calendário carioca. Coincidência? Carnaval.
Segundo a mesma fonte, o carnaval do Amapá teria até mudado de data. Não por razões culturais, climáticas ou logísticas locais, mas para acomodar uma grande comitiva oficial interessada em assistir aos desfiles na Marquês de Sapucaí. Ir ao carnaval não é pecado. Não é crime. O erro começa quando a fantasia é paga com dinheiro público.

Corre à boca pequena que um “trem”, um “aviãozinho da alegria”, estaria determinado. Se for metáfora, que fique no samba. Se for literal, que se pague do próprio bolso. O dinheiro público não é confete.
E há mais ruído no batuque. Alas conservadoras da Mangueira se movimentam para impedir que figuras públicas do Amapá desfilem. O motivo? O patrocínio de cerca de R$ 10 milhões para um samba-enredo que homenageia um místico local — digno de respeito, sem dúvida —, mas de alcance nacional limitado, não será passaporte livre para campanha eleitoral. Não se trata de negar valor elevado, e sim de perguntar: é essa a melhor vitrine para o Amapá?
A Amazônia Negra do Amapá é tema potente, profundo, histórico. Ainda assim, causa estranheza o silêncio sobre Cabralzinho, os tucujus, a resistência à invasão francesa, a formação do território, o progresso arrancado a duras penas. Esses, sim, são capítulos que conversam com o Brasil e com o mundo. E mais: talvez fosse muito mais útil trazer a Mangueira para desfilar no Amapá do que pagar milhões para um enredo no Rio.
Os números ajudam a pensar. A Prefeitura do Rio paga cerca de R$ 2,3 milhões à escola campeã. A Liesa repassa algo em torno de R$ 2,5 milhões a cada escola do Grupo Especial. Ao mesmo tempo, há questionamentos de órgãos de controle sobre cortes e ajustes — inclusive discussões envolvendo R$ 1 milhão em repasses — enquanto outros gastos paralelos seguem sob críticas públicas: camarotes luxuosos, como o do Banco Master, e patrocínios que inflamam o debate sobre prioridades. Soma-se a isso mais outros tantos milhões aqui e ali, cuja origem e destino nem sempre ficam claros no noticiário — e a conta perde o ritmo.
Tudo isso recoloca a pergunta central: vale destinar tanto dinheiro a um evento efêmero, de retorno social e econômico incerto para o Amapá? O exemplo está ali, no meio da floresta: Parintins. Isolada, sim. Mas organizada. Um modelo que atrai turistas, imprensa nacional e internacional, gera renda local e constrói identidade sem precisar desfilar em outra cidade para existir.

O Amapá faria muito melhor se trouxesse gente para conhecer o Rio Amazonas, único no planeta, do que levar poucos privilegiados à Sapucaí. Carnaval que não conversa com os objetivos da população amapaense vira apenas passeio oficial com glitter.
Folia, sim. Cultura, sempre. Marajás, não.
Respeitem o dinheiro público do Amapá.