100 ANOS DE OBRA NA BR-156
Rodovia inacabada há quase um século no Amapá pode entrar para o Guinness Book como a obra que começou em um século e ainda não terminou no outro
Se existe no Brasil um monumento perfeito à procrastinação do Estado, ele atende pelo nome de BR-156. A rodovia que corta o Amapá de norte a sul já atravessou governos, regimes políticos, promessas eleitorais, placas inaugurais, discursos inflamados e bilhões em anúncios — mas não conseguiu atravessar, de forma definitiva, o próprio território.
A BR-156 é, oficialmente, uma estrada. Na prática, é um arquivo histórico a céu aberto da ineficiência pública. Uma obra que começou no século passado, avançou alguns quilômetros em cada década, e agora ameaça celebrar cem anos de inacabamento, algo raro até para os padrões nacionais.

Diante do feito, cresce a ideia — nada absurda — da criação de uma Comissão Organizadora do Centenário da BR-156 Inacabada. Afinal, personagens não faltam.
Seriam convidados oficiais do Exército que, ao longo dos anos, posaram ao lado de placas anunciando o asfaltamento “iminente” da rodovia. Governadores de diferentes épocas, todos eles autores de promessas, lançamentos simbólicos, ordens de serviço e inaugurações do “início das obras”. Também estariam presentes representantes de construtoras que chegaram ao Amapá com contratos milionários e deixaram para trás trechos intrafegáveis, muitas delas posteriormente alvos de investigações da Polícia Federal e de outros órgãos de controle.
Mas o evento não poderia ser apenas institucional. Precisaria, sobretudo, convidar quem paga a conta dessa história.

Os povos indígenas, que há décadas aguardam soluções que respeitem seus territórios e garantam mobilidade com dignidade. As populações ribeirinhas, isoladas por atoleiros e interrupções constantes. Os trabalhadores da mineração, que enfrentam prejuízos logísticos diários. E, de forma dolorosa, os familiares das pessoas que perderam a vida em acidentes provocados pelas péssimas condições da estrada.
Também estariam lá os motoristas comuns, caminhoneiros, comerciantes, servidores públicos, que acumulam prejuízos materiais, traumas físicos e perdas pessoais em uma rodovia que nunca entrega o mínimo que promete: segurança e trafegabilidade.
A proposta mais simbólica do centenário seria a construção de um monumento à obra inacabada. Não para celebrar, mas para lembrar. Um memorial ao descaso. Uma escultura que atravesse dois séculos sem solução definitiva, representando com fidelidade o que a BR-156 se tornou: uma promessa permanente.
Enquanto isso, o Amapá segue pagando o preço do isolamento, do encarecimento de produtos, da limitação do desenvolvimento e da sensação recorrente de abandono. A BR-156 não é apenas uma estrada mal concluída. Ela é o retrato de um modelo de gestão que anuncia muito, executa pouco e raramente presta contas.
Se completar cem anos sem conclusão, talvez reste mesmo ao Amapá tentar o Guinness Book. Não como orgulho, mas como denúncia internacional de que, em pleno século XXI, ainda existem obras públicas no Brasil que atravessam gerações sem chegar ao fim.

Porque, no caso da BR-156, o problema nunca foi falta de tempo.
Foi — e continua sendo — falta de vontade política, seriedade e responsabilidade com quem vive aqui.