AMPREV – Banco Master é assunto proibido no governo Clécio?
No Amapá, há assuntos que parecem proibidos.
E, quando alguém pergunta, a reação costuma dizer mais do que qualquer resposta.
Vivemos o velho e conhecido “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”.
É a conclusão a que se chega após o lamentável episódio de censura a um jornalista que, de forma respeitosa, questionou um tema explosivo: a relação entre a previdência do Amapá (Amprev) e o Banco Master, envolvido no que já é tratado como o maior escândalo financeiro do século XXI no Brasil até agora.

A constatação de temas proibidos, se impõe quando, meses atrás, outro jornalista perguntou ao prefeito de Macapá — adversário político do governador — sobre uma obra de R$ 69 milhões, cercada de acusações da Polícia Federal por desvios, propinas e atraso na entrega de um hospital. O resultado foi um “mata-leão” aplicado pelo prefeito, tapas de assessores exaltados e prisão, sob a alegação de que uma cidadã teria ficado com o braço arranhado.
De um lado, portanto, a violência explícita diante de uma pergunta sobre R$ 69 milhões.
De outro, agora, o questionamento sobre R$ 400 milhões aplicados pela Amprev no Banco Master, numa operação considerada, no mínimo, questionável.

Tudo isso se conecta ao ataque passional de uma assessora do governador, que tentou tomar à força o celular do jornalista, aos gritos, empurrões e arranhões.
Esse foi o pano de fundo da confusão envolvendo o governador e um repórter da mídia amapaense, episódio que ganhou repercussão nacional.
Não precisava.
A razão é simples: quando a pergunta incomoda e o entrevistador é agredido, a democracia é que sai machucada.
Por causa desse entendimento, o episódio ganhou contornos ainda mais graves quando, na sequência, surgiram acusações de comportamentos homofóbicos atribuídos a assessores do governador, supostamente contra o profissional agredido.
E aqui não se trata de detalhe — trata-se de gravidade institucional.
O Amapá é, depois de Brasília, o estado com maior proporção de pessoas que se declaram homossexuais, segundo o último censo do IBGE.
Isso não é um número frio.
É gente.
É cidadania.
É respeito.
Não se trata de defender espectros políticos, ideológicos, de gênero ou opções pessoais.
Trata-se do básico: não ofender e respeitar.
O Estado brasileiro não é igreja, nem quartel.
Quem busca doutrina rígida de costumes, entra numa igreja.
Quem deseja disciplina absoluta, alista-se no quartel.
O Estado é laico, civil, e não pode fazer acepção de pessoas.
No regime democrático, o *direito de perguntar existe, assim como o *direito de não responder.
O que não existe é o direito de intimidar, constranger ou agredir para silenciar uma simples pergunta.
E é preciso registrar mais uma vez: este não é um fato isolado.
Há pouco tempo, um outro jornalista veterano e respeitado — inclusive elogiado pelo presidente Lula por sua imparcialidade durante a última visita ao Amapá — foi protagonista de outro episódio deprimente, fruto da mesma lógica equivocada de tentar impedir que a opinião pública saiba o que fazem e o que pensam seus representantes sobre temas de alta relevância.
Se isso continuar, talvez seja o caso de recomendar que jornalistas façam treinamento em artes marciais antes das entrevistas.
Ou contratem seguranças particulares.
Ou vistam roupas à prova de beliscões e unhadas de assessores excessivamente passionais dos inquilinos do poder.

E, quando a eleição se aproximar, que não seja necessário cogitar coletes balísticos.
Porque, do jeito que a coisa anda, esse tipo de comportamento pode empurrar o ambiente político local para uma situação-limite, perigosa, desagradável e desnecessária a qualquer campo que pretenda disputar votos.
Fica portanto o recado:
que os assessores dos atuais detentores do poder se coloquem no lugar do outro lado.
Que jornalistas e cidadãos sejam tratados com urbanidade, dignidade, respeito e competência profissional — e não com a conduta primitiva de partir para cima de alguém com unhas e dentes, língua de ofensas e agressividade, revelando, por baixo do verniz institucional, práticas de unhas encravadas pela ignorância e estupidez.
Para além das unhas em defesa do chefe e do emprego, atitudes lamentáveis de *homofobia, *agressão ou agressividade não contribuem para melhorar a compreensão da população sobre seus representantes, justamente num momento decisivo, em que o eleitor vai escolher entre *reeleger, *mudar ou renovar seus compromissos democráticos.