
Em tempos de Copa do Mundo, as analogias com o futebol ajudam a explicar situações que vão além dos gramados. Na política, uma delas chama a atenção: quando um time parece depender de um único jogador, corre o risco de perder eficiência e previsibilidade. É essa a comparação feita por críticos da estratégia de comunicação do Governo do Amapá.
Na avaliação desses observadores, o governador Clécio Luís tornou-se o principal protagonista de praticamente todas as ações institucionais. É ele quem anuncia obras, participa de inaugurações, grava vídeos, realiza transmissões ao vivo e concentra a maior parte da exposição pública da administração estadual.
A crítica é que um governo não se resume à figura do governador. Secretários, técnicos, gestores e centenas de servidores públicos também executam políticas públicas e poderiam dividir o espaço institucional, valorizando o trabalho coletivo e fortalecendo a imagem da administração como equipe, e não como um projeto centrado em uma única pessoa.
Na metáfora do futebol, seria um time em que o mesmo jogador arma a jogada, recebe o passe e finaliza: “passa a bola para ele mesmo”.
Outro ponto levantado é o investimento realizado na comunicação institucional ao longo dos últimos três anos e meio. Para os críticos, apesar dos recursos empregados, a estratégia não teria produzido os resultados esperados em termos de fortalecimento da imagem do governo.

Também são questionadas ações recentes de identidade visual que associam o nome do governador às obras públicas por meio de placas e materiais de divulgação. Segundo essa avaliação, trata-se de uma estratégia de alcance limitado, especialmente diante das restrições legais que passam a vigorar no período eleitoral.
Como exemplo, citam placas instaladas em unidades do sistema penitenciário estadual com mensagens destacando realizações do governo. Para esses críticos, esse tipo de comunicação produz efeito contrário ao desejado, por associar a imagem institucional a ambientes marcados por problemas estruturais e de segurança.
Na análise de especialistas em comunicação política, a exposição excessiva de uma liderança pode produzir desgaste ao longo do tempo. A repetição constante da mesma figura tende a reduzir o impacto das mensagens e dificulta a construção de uma percepção institucional mais ampla.
Nesse contexto, argumenta-se que um chefe do Executivo deve preservar sua imagem para momentos estratégicos, exercendo liderança e autoridade, em vez de ocupar diariamente todos os espaços das redes sociais e da comunicação oficial.

Os críticos afirmam que, quando uma imagem pública atinge elevado nível de desgaste, até mesmo iniciativas positivas podem enfrentar resistência por parte da opinião pública, independentemente de seu conteúdo ou benefício.
A história política brasileira registra diversos líderes que dominaram o cenário durante décadas e, com o tempo, perderam protagonismo à medida que novas lideranças surgiram. Para esses analistas, a renovação faz parte da dinâmica natural da política.
Segundo essa leitura, pesquisas de opinião recentes indicariam dificuldades para o governador na disputa pela reeleição. Seus críticos atribuem esse cenário a falhas de comunicação, excesso de personalização da gestão e dificuldades na construção de uma liderança política mais ampla.
Independentemente do desfecho eleitoral, o debate evidencia uma questão recorrente da comunicação pública: até que ponto a exposição constante fortalece uma liderança e em que momento ela passa a produzir o efeito inverso? Em política, como no futebol, nem sempre quem toca mais na bola é quem decide a partida.