13 ANOS DEPOIS: A TRAGÉDIA DE SANTANA, O TRABALHADOR DESAPARECIDO E AS FERIDAS ABERTAS DO AMAPÁ

Por: Dantas Filho

Treze anos se passaram desde a tragédia no porto de Santana, mas o tempo não foi capaz de encerrar o luto — nem de responder às perguntas mais dolorosas. Entre elas, uma permanece como símbolo do abandono: o corpo de um trabalhador que até hoje não foi encontrado.

Especialistas que atuaram em desastres como o de Rompimento da barragem de Brumadinho, envolvendo a Vale, e também no caso da Samarco, são categóricos ao afirmar que há grande probabilidade de que os restos mortais estejam sob as estruturas colapsadas. Preso entre ferragens e concreto, soterrado pelo descaso, esse trabalhador se tornou um símbolo silencioso de uma tragédia mal resolvida.

Não se trata apenas de um acidente. Trata-se de uma sucessão de falhas — operacionais, institucionais e humanas — que custaram vidas e deixaram marcas profundas em toda uma região.

Ao longo desses anos, surgiram estudos preocupantes conduzidos por universidades, apontando efeitos duradouros da tragédia. Pesquisas indicam a presença de metais pesados no ar, na água e na vegetação das áreas próximas ao desastre, com impactos diretos sobre a saúde da população. Há registros alarmantes envolvendo crianças — inclusive bebês — com problemas associados à contaminação ambiental, possivelmente ligada ao manganês que permaneceu por longo período exposto a céu aberto.

Esses dados reforçam uma percepção cada vez mais difundida: a tragédia não terminou. Ela apenas mudou de forma.

THAIS SOUZA Filha da vítima MANOEL SOUZA.

Agora, com a reabertura e o desarquivamento inicial de processos, inclusive na esfera criminal contra dirigentes à época, abre-se uma nova frente de responsabilização. Advogados das vítimas buscam não apenas justiça simbólica, mas também reconhecimento concreto dos danos — humanos, ambientais e econômicos.

E esse movimento pode gerar repercussões muito além do Amapá.

Há informações de mercado indicando uma possível associação estratégica entre a Anglo American e a Vale, com valores estimados na casa de centenas de milhões de euros. No entanto, práticas modernas de compliance e governança corporativa impõem restrições claras: empresas com passivos ambientais relevantes ou litígios em aberto enfrentam barreiras reais para consolidar parcerias desse porte.

Angelita Souza, viúva da vítima Manuel Souza, nunca esquece que o marido comentava sobre o perigo de colapso na estrutura do Porto. Diz: “todos sabiam”.

Nesse contexto, a reabertura do caso Santana pode se tornar um fator de risco reputacional e jurídico — um entrave concreto a negociações internacionais.

Mas talvez o impacto mais profundo não esteja nos contratos, e sim na vida cotidiana de quem ficou.

A tragédia desestruturou a economia local. O porto, que funcionava como motor de desenvolvimento da região, parou abruptamente. Pequenos comerciantes faliram, fornecedores perderam contratos, empregos desapareceram. Municípios sentiram a queda brusca na arrecadação. E até hoje, mais de uma década depois, muitos ainda tentam se reerguer sem qualquer política robusta de compensação ou reconstrução econômica.

Entre os idosos, relatos indicam agravamento de problemas de saúde e vulnerabilidade social — efeitos indiretos, porém devastadores, de um desastre que interrompeu não apenas estruturas físicas, mas trajetórias de vida.

O caso de Santana expõe, com clareza brutal, o custo do abandono.

Não houve resposta proporcional. Não houve reparação à altura. E, em muitos aspectos, não houve sequer encerramento.

Treze anos depois, o trabalhador desaparecido continua à espera de ser encontrado. E o Amapá, de alguma forma, também.

A diferença é que um está sob os escombros. O outro, sob o peso da memória e da negligência.

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