Por: Dantas Filho
Acaba de ser divulgada mais uma pesquisa eleitoral realizada por instituto regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Como toda pesquisa, ela não determina o futuro nem encerra o debate público. Trata-se apenas de um retrato de momento, sujeito às mudanças naturais da política. Ainda assim, pesquisas ajudam a compreender o humor da população e servem como instrumento para reflexão.
Antes de qualquer análise, é importante lembrar um princípio básico da administração pública: governantes não fazem favores. Não fazem caridade. Não distribuem benefícios com recursos próprios. Toda obra, toda escola, toda ponte, todo hospital e todo programa social são financiados pelos impostos pagos pela população. Da mesma forma, todo agente público recebe para exercer uma função. Portanto, quando um governo entrega resultados, está cumprindo sua obrigação.
Analisando de maneira pessoal e não necessariamente técnica, ninguém poderá negar que Clécio Luís Vilhena seja reconhecido por muitos como uma pessoa educada, articulada e de bom relacionamento. Há quem o considere um bom professor, um bom amigo e um cidadão de comportamento respeitável. Entretanto, qualidades pessoais não garantem automaticamente o sucesso de uma gestão pública.
Na avaliação deste articulista, uma das principais dificuldades do atual governador foi não ter compreendido plenamente a diferença entre governar uma capital e governar um estado. Ao assumir o Palácio do Setentrião, Clécio teria continuado atuando politicamente como prefeito quando precisava agir como governador.
Macapá concentra a maior parte da população, da economia, dos serviços públicos e da estrutura administrativa do Amapá. O que acontece na capital repercute diretamente em todo o estado. Por isso, muitos observadores defendem que a capital deveria ocupar posição central na estratégia política e administrativa de qualquer governo estadual.
O primeiro sinal dessa divergência apareceu logo no início da gestão. O slogan “trabalhando pelo estado inteiro” foi apresentado como marca do governo. Contudo, havia quem defendesse uma mensagem diferente: trabalhar intensamente por Macapá e, a partir dela, irradiar resultados para os demais municípios.
Outro aspecto que chama atenção foi a excessiva centralização da comunicação institucional. Praticamente tudo passou pela imagem do governador. Obras, programas, anúncios e entregas foram comunicados diretamente por ele. A impressão transmitida foi a de um governo excessivamente personalizado.
Onde estava o secretariado? Onde estavam os auxiliares assumindo protagonismo, apresentando resultados e dividindo responsabilidades? Quando tudo o que acontece de positivo tem um único rosto, os desgastes também acabam recaindo sobre essa mesma figura.
Especialistas em comunicação e marketing político costumam alertar para o risco da superexposição. Nenhuma liderança consegue permanecer permanentemente em evidência sem sofrer desgaste de imagem. A exposição contínua, dia após dia, pode produzir saturação junto ao público.
Na área da saúde, tema que tradicionalmente define a avaliação de qualquer governo, as cobranças continuaram presentes. Anúncios, promessas e expectativas elevadas acabaram gerando exigências igualmente elevadas por parte da população. O debate sobre investimentos, prioridades e modelos de atendimento permanece vivo no cenário amapaense.
Também contribuiu para críticas a percepção de que o governo manteve pouca interação pública com setores importantes da representação política. Foram raras as ocasiões em que se observaram reuniões amplamente divulgadas envolvendo o governador, a Assembleia Legislativa e a totalidade da bancada federal. Para muitos observadores, isso transmitiu a imagem de um governo excessivamente fechado em seu próprio núcleo político.
Outro tema que gerou questionamentos foi a mudança partidária ao longo da trajetória política do governador. Em um ambiente de crescente polarização ideológica, parte do eleitorado passou a observar com mais atenção a coerência entre discurso, posicionamento político e escolhas partidárias.
Somam-se a isso debates públicos envolvendo previdência estadual, investimentos, projetos de infraestrutura, prioridades administrativas e outras controvérsias que continuam sendo discutidas pela sociedade. Independentemente das versões apresentadas pelos diferentes atores políticos, são temas que permanecem influenciando a percepção da opinião pública.
Há ainda a crítica recorrente de que o governo frequentemente se envolveu em disputas sobre autoria de obras e ações administrativas. Em uma federação, recursos municipais, estaduais e federais costumam se misturar. O problema surge quando a população já não consegue identificar claramente quem executou determinada obra ou serviço.
No fim das contas, pesquisas não elegem nem derrotam candidatos. Elas apenas registram percepções. Mas também servem como alerta para governantes que desejam compreender os sinais emitidos pela sociedade.
Se existe hoje um ambiente de insatisfação refletido em pesquisas de opinião, a explicação talvez esteja menos nos adversários políticos e mais nas escolhas feitas ao longo do próprio mandato. Afinal, governos são julgados não apenas pelas intenções que anunciam, mas principalmente pelos resultados que entregam e pela confiança que conseguem construir.
E confiança, uma vez perdida, é sempre mais difícil de recuperar do que de conquistar.