A INTERNET ACABOU COM O PRAZO DE VALIDADE DAS PROMESSAS POLÍTICAS

Por: Dantas Filho

Opinião.
Eleições 2026.

Durante décadas, a política brasileira conviveu com um fenômeno recorrente: promessas grandiosas feitas durante as campanhas eleitorais que, após a posse dos eleitos, desapareciam da memória coletiva com surpreendente rapidez. Hoje, porém, essa realidade começa a mudar. A principal responsável por essa transformação atende pelo nome de internet.

A era digital eliminou um dos maiores aliados dos maus gestores e dos políticos profissionais: o esquecimento. Discursos inflamados, entrevistas, debates, vídeos de campanha e postagens nas redes sociais permanecem armazenados indefinidamente, disponíveis para consulta pública a qualquer momento. O que antes se perdia nos arquivos de emissoras de rádio e televisão agora está ao alcance de qualquer cidadão munido de um telefone celular.

Essa mudança está alterando a relação entre eleitores e candidatos. Em vez de depender apenas da memória individual, o cidadão passou a contar com um gigantesco arquivo digital capaz de confrontar promessas e realizações. A cada novo processo eleitoral, ressurge uma pergunta simples, mas devastadora: o que foi prometido foi realmente cumprido?

Nesse novo cenário, as tradicionais estratégias de marketing político enfrentam dificuldades crescentes. Dançar em eventos, gravar vídeos para redes sociais, posar ao lado de crianças, distribuir sorrisos ou apresentar projetos mirabolantes já não produzem o mesmo impacto de outras épocas. A encenação continua existindo, mas passou a dividir espaço com um instrumento muito mais poderoso: a verificação dos fatos.

O eleitor moderno pode comparar falas antigas com resultados concretos. Pode verificar obras anunciadas e não concluídas, programas prometidos e abandonados, metas divulgadas e jamais alcançadas. A tecnologia transformou cada cidadão em um potencial fiscal do poder público.

Também parece crescer a consciência de que benefícios pontuais distribuídos em períodos eleitorais não são capazes de compensar anos de deficiência nos serviços públicos. A população percebe, cada vez mais, que os recursos utilizados para ações promocionais e políticas pertencem, na verdade, à própria sociedade, arrecadados por meio de impostos pagos diariamente por trabalhadores e empresários.

Com acesso instantâneo a todo tipo de informação, internautas e portais, cobram promessas dos políticos ainda não cumpridas em final e renovação de mandatos.

É possível que, por necessidade, parte da população continue aceitando favores, brindes ou promessas de última hora. Entretanto, a experiência demonstra que a decisão final é tomada na intimidade da cabine de votação. É ali que muitos eleitores recordam familiares que aguardaram atendimento médico sem sucesso, jovens obrigados a deixar sua terra em busca de oportunidades, ruas abandonadas, escolas precárias e promessas repetidas durante anos sem qualquer resultado efetivo.

A eleição de 2026 poderá representar um dos maiores testes para essa nova consciência política. Não porque os candidatos deixarão de prometer, mas porque os eleitores dispõem, hoje, de ferramentas inéditas para avaliar quem apenas fala e quem efetivamente realiza.

A internet não resolveu os problemas da política brasileira. Mas tornou muito mais difícil esconder a distância entre o discurso e a realidade. E isso, por si só, já representa uma mudança histórica.

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