Por: Dantas Filho
Davi Alcolumbre não é vilão. Na minha avaliação, é um grande político da Amazônia. E, antes de concordar ou discordar dessa afirmação, vale refletir sobre o contexto em que sua trajetória foi construída.
Se nordestinos ainda enfrentam preconceitos históricos, como essa eleição mostrou, imagine o que significa representar o Norte, a Amazônia e suas tradicionais populações indígenas, de imigrantes e ribeirinhas, tantas vezes esquecidas e marginalizadas no processo de desenvolvimento nacional. É desse cenário que emerge um senador de um dos menores estados da Federação, o Amapá, que alcançou posição de destaque entre as principais figuras da República, como presidente do Senado e do Congresso Nacional, a caminho do terceiro mandato.

A régua moral, entretanto, parece mudar conforme o personagem. Ministros que recebem presentes caros ou monetizam sua imagem em atividades privadas são alvos de questionamentos pontuais que nem sempre produzem a mesma indignação. Condutas políticas controversas também parecem toleráveis para determinados setores. Mas, quando surge uma acusação contra um senador amazônida, uma alegação ainda dependente de comprovação pode ser transformada, no tribunal da opinião pública, em condenação antecipada.

Acusação não é prova. Suspeita não é sentença definitiva. Se há indícios contra Davi Alcolumbre, que sejam investigados com rigor, transparência e independência. O que não se pode admitir é o pré-julgamento seletivo.
No Amapá, independentemente das críticas que suas escolhas políticas mereçam, é inegável a influência de Davi na articulação de recursos vultosos, alianças e decisões de interesse estadual. Isso não significa que tenha acertado sempre. Sua aliança com Clécio Luís, por exemplo, pode ser questionada politicamente. Clécio tem qualidades pessoais como nenhum outro político da nova geração. O governador, em fim de mandato, mantém uma conduta inatacável quanto à probidade, mas governar exige mais do que boas intenções: exige capacidade de responder às complexidades e à competitividade da política local.
Também chama a atenção a postura republicana de Davi diante de provocações e ataques pessoais, inclusive de aliados. Quando alguém se dirige de forma grosseira ao terceiro homem na linha de sucessão presidencial, a responsabilidade pelo desrespeito é de quem o pratica.
Noutro aspecto fundamental, divergência política não justifica desrespeito, muito menos preconceito relacionado à sua aparência física ou à formação acadêmica, que nada tem a ver com seu desempenho político. Lula não estudou formalmente, mas é o presidente que mais implantou universidades públicas no país e, por conta de sua atuação, tem o reconhecimento mundial como um dos maiores estadistas da história moderna.

Há, ainda, uma diferença de tratamento que precisa ser discutida. Por que determinadas manobras políticas e jurídicas envolvendo outros agentes públicos no Amapá são recebidas com relativa tolerância, enquanto Davi se torna alvo de julgamentos sumários? Qualquer denúncia, seja contra um senador, governador ou ministro, deve ser apurada segundo os mesmos critérios. Ninguém está acima da lei, mas ninguém deve ser condenado sem provas. Especialmente no STI (Supremo Tribunal da Internet).
O que dizer, então, da política amapaense? Na disputa pelo poder, houve quem preferisse aguardar o desfecho eleitoral do segundo turno para só depois se posicionar ao lado do vencedor. Davi, ao contrário, assumiu posições e participou das articulações que considerava necessárias à governabilidade. Pode-se discordar de suas escolhas, mas não se deve ignorar o custo político de quem decide tomar partido.
Davi Alcolumbre não é perfeito. Errou? Pode ter errado e continuará sujeito a críticas. Mas sua coragem, sua resistência às pressões e sua capacidade de sustentar posições impopulares também precisam entrar na avaliação de sua trajetória. A gratidão política não deve substituir o julgamento crítico precipitado; tampouco a ingratidão deve apagar contribuições efetivas de quem trabalha submetendo-se ao jogo pesado do poder, que, da noite para o dia, tira um senador da República de seu país, só com a roupa do corpo, para se abrigar num lugar estranho a ele e à sua família.
Em face do intrincado mundo das relações políticas no país, até mesmo episódios nacionais, como a demora na apreciação da indicação de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal, merecem ser revisitados sem conclusões precipitadas. As motivações e responsabilidades por decisões dessa natureza precisam ser estabelecidas com base em fatos documentados, não em versões convenientes ou especulações.
Façamos justiça a quem merece. Investiguem-se as denúncias, comprovem-se os fatos e responsabilizem-se os culpados, sejam eles quem forem. Mas que não se confunda crítica com perseguição, suspeita com culpa ou divergência política com licença para desumanizar, referência feita pelo próprio Davi durante pronunciamento em Brasília.
Um dia, quando a biografia de Alcolumbre for escrita com a distância que a história exige, talvez episódios hoje utilizados contra ele recebam outra interpretação. O julgamento definitivo não pertence às paixões do momento, mas à análise dos fatos, das decisões e de suas consequências.
Davi tem virtudes e defeitos, como qualquer homem público. Porém, concluímos que suas contribuições ao Amapá e sua coragem política merecem ser reconhecidas. Não peço que concordem comigo. Sugiro apenas que reflitam, antes de condenar.
A história não exige gratidão cega. Mas nos impõe justiça, memória, reconhecimento e verdade.