Deus não se mete em política

Uma reflexão sobre a fé, o poder e o uso do nome de Deus.

Por que o Deus que, segundo as Escrituras, abriu o Mar Vermelho, fez o sol parar, respondeu com fogo ao desafio dos profetas, ressuscitou Lázaro e multiplicou os pães não teria concedido a vitória a Flávio Bolsonaro, apoiado por tantos que se apresentavam como porta-vozes da vontade divina?

Afinal, havia aqueles que não apenas declaravam sua preferência política, mas garantiam, em nome de Deus, que seu candidato venceria. Como se tivessem uma linha direta com o Criador e fossem os únicos intérpretes de Sua vontade.

Cristo quando caminhou pela terra, em inúmeras ocasiões destacou a separação do seu evangelho da política terrena.

Mas e se o problema não estiver em Deus, e sim na maneira como alguns usam o Seu nome?

Talvez a resposta esteja na própria Bíblia, na história dos profetas de Baal, que clamavam diante de um falso deus, incapaz de responder às suas súplicas.

Quantas vezes, em nome da fé, não se transforma a política em religião, o candidato em messias e a disputa eleitoral em uma batalha supostamente travada em nome do céu?

O Deus vivo não precisa de cabos eleitorais, não depende de palanques e não concede procuração a ninguém para falar exclusivamente em Seu nome. A fé não é instrumento de dominação política, tampouco um certificado de superioridade moral sobre aqueles que pensam diferente.

Invocar Deus para garantir uma vitória eleitoral é correr o risco de transformar a fé em superstição e o sagrado em instrumento de poder. E atribuir a derrota do adversário a um castigo divino pode ser tão presunçoso quanto anunciar antecipadamente uma vitória em nome do Altíssimo.

A história bíblica do bezerro de ouro nos deixa uma advertência poderosa: o ser humano pode fabricar seus próprios ídolos, ajoelhar-se diante deles e acreditar que está adorando o Deus verdadeiro.

Talvez o maior equívoco seja imaginar que Deus precisa vencer uma eleição para provar que existe.

A democracia tem suas regras, o eleitor tem sua consciência e o resultado das urnas deve ser compreendido à luz das escolhas humanas, não de supostas revelações particulares.

Deus não precisa de um candidato para ser Deus. E nenhum candidato se torna escolhido do Altíssimo simplesmente porque seus apoiadores assim proclamam.

Que cada um examine a própria consciência, respeite a fé alheia e compreenda que usar o nome de Deus exige responsabilidade, humildade e temor.

Porque o Deus das Escrituras não pode ser reduzido aos interesses de um partido, de uma família política ou de um projeto de poder.

Eis a reflexão final: Deus não se mete em política. São os homens que tentam meter Deus na política — muitas vezes, para fazer prevalecer a própria vontade.

Ponto final.

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