PARAGUAI: O PARAÍSO QUE NÃO EXISTE PARA QUEM PRECISA VIVER DE SALÁRIO

Por Dantas Filho

Fico espantado com a falta de conhecimento de algumas pessoas que passaram a enxergar o Paraguai como uma espécie de terra prometida, um paraíso econômico capaz de oferecer aos brasileiros uma vida melhor do que aquela que encontram no Brasil.

Como alguém que conhece a realidade do nosso vizinho sul-americano, considero necessário separar propaganda, oportunidades reais e ilusões.

Tem gente que não consegue melhorar de vida na oitava maior economia do mundo, acreditando que serão bem sucedidas na centésima economia, sem saúde e educação públicas e com enorme ressentimento contra estrangeiros.

O Paraguai tem, evidentemente, suas vantagens competitivas. Seria injusto não reconhecê-las. Durante muitos anos, foi particularmente atraente para produtores rurais brasileiros, especialmente gaúchos que se estabeleceram naquele país, os chamados brasiguaios. Encontraram terras de boa qualidade, preços relativamente competitivos, disponibilidade de mão de obra e condições favoráveis à expansão da atividade agrícola.

Também existem vantagens tributárias, oportunidades industriais e condições diferenciadas de custo operacional para determinados segmentos empresariais.

A energia elétrica é outro diferencial importante. O Paraguai tem participação de 50% na produção de Itaipu, embora não consuma integralmente sua parcela e comercialize a energia excedente conforme os acordos binacionais. Para determinadas atividades industriais, o custo energético representa um atrativo considerável.

Mas é preciso compreender as dimensões do país antes de transformá-lo em uma fantasia econômica.

O Paraguai possui aproximadamente 406,7 mil quilômetros quadrados, população estimada em 7 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto na ordem de US$ 49 bilhões, segundo dados de 2025 do Banco Mundial. Para efeito de comparação, o Brasil possui mais de 212 milhões de habitantes e um PIB superior a US$ 2,2 trilhões.

Estamos falando de economias de dimensões absolutamente diferentes.

O Paraguai não possui saída marítima. Sua logística internacional depende de corredores terrestres e da navegação fluvial, especialmente pela Hidrovia Paraguai-Paraná, que permite alcançar o Atlântico. Também mantém uma relação logística histórica com o Brasil, inclusive por meio do Porto de Paranaguá, onde existe uma área específica destinada à movimentação de mercadorias paraguaias desde 1957.

É uma relação comercial e logística importante, mas não exclusiva: o país também utiliza terminais próprios e outros corredores internacionais.

A dependência econômica dos mercados vizinhos é igualmente relevante. O Brasil é um dos principais parceiros comerciais paraguaios, tanto nas exportações quanto nas importações. Em 2025, as importações paraguaias provenientes do Brasil ultrapassaram US$ 4,1 bilhões, enquanto as exportações paraguaias para o mercado brasileiro ficaram em aproximadamente US$ 3,4 bilhões.

Isso demonstra a importância estratégica do mercado brasileiro para a economia paraguaia.

Não se trata de diminuir o Paraguai. Trata-se de compreender sua realidade.

EMPREENDEDORISMO É UMA COISA. SOBREVIVÊNCIA COM SALÁRIO É OUTRA.

Naturalmente, existem oportunidades para empresários, investidores, comerciantes, industriais e empreendedores que disponham de capital, planejamento e conhecimento do mercado.

Alguns setores podem encontrar condições particularmente interessantes: agronegócio, processamento de alimentos, indústria de transformação, confecções, logística, serviços e atividades intensivas em energia elétrica.

A proximidade com o Brasil, a Argentina e a Bolívia também constitui uma vantagem geográfica para quem pretende atuar no mercado regional.

Mas há uma diferença enorme entre investir em um negócio e mudar de país acreditando que encontrará emprego, salário competitivo e proteção social semelhantes aos oferecidos no Brasil.

É justamente aí que começa o problema.

O trabalhador brasileiro precisa compreender que o Paraguai não possui a estrutura de proteção social brasileira. A legislação trabalhista é outra, o sistema previdenciário é diferente e o regime de contratação não corresponde ao nosso modelo de carteira assinada, o conhecido CLT.

O país possui trabalhadores formalizados e um sistema de previdência administrado pelo Instituto de Previsión Social (IPS). Entretanto, a informalidade continua sendo um problema estrutural. Estudos da OCDE apontaram taxas de informalidade superiores a 60% entre os trabalhadores não agrícolas nos anos recentes.

Isso significa que uma parcela expressiva da população economicamente ativa trabalha sem a cobertura previdenciária e trabalhista que deveria acompanhar uma relação formal de emprego.

Portanto, quem pretende atravessar a fronteira precisa investigar muito bem a natureza da contratação, a contribuição previdenciária, o acesso à saúde, os direitos trabalhistas e as condições efetivas de remuneração.

Não basta olhar para o preço de um combustível, de um supermercado ou de um imóvel.

É preciso saber quanto se ganha, quanto custa viver e quais garantias existem quando o emprego termina.

A CONCORRÊNCIA TAMBÉM TEM SEU PREÇO

Existe ainda outro aspecto que os entusiastas dessa migração parecem ignorar.

Uma eventual entrada expressiva de brasileiros no mercado de trabalho paraguaio aumentaria a concorrência por vagas, pressionaria a oferta de mão de obra e poderia produzir efeitos sobre os salários, especialmente nos segmentos de menor qualificação.

Ao mesmo tempo, uma concentração maior de estrangeiros com capacidade de consumo em determinadas cidades poderia pressionar aluguéis, serviços, alimentação e combustíveis.

É a velha lei da oferta e da procura.

Não existe mágica econômica. Se a procura por imóveis aumenta, os preços podem subir. Se a oferta de trabalhadores cresce sem expansão proporcional das oportunidades, a remuneração pode sofrer pressão.

E não se pode esquecer que o trabalhador estrangeiro estará disputando espaço com uma população local que também precisa trabalhar e sobreviver.

A ideia de que basta atravessar a fronteira para encontrar salários melhores e uma vida mais barata não resiste a uma análise minimamente responsável.

O DINHEIRO MUDA A REALIDADE. A FALTA DELE, NÃO.

No fundo, qualquer lugar do mundo pode ser maravilhoso quando se tem dinheiro para investir, empreender, consumir e aproveitar as vantagens locais.

Até o Paraguai!

O problema começa quando se chega sem capital, sem emprego garantido, sem conhecimento da legislação e, principalmente, sem compreender as condições reais do mercado de trabalho.

O Brasil tem problemas conhecidos, mas oferece uma estrutura de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas que não pode ser simplesmente desprezada. A Previdência Social, o SUS, o FGTS, o seguro-desemprego e a legislação trabalhista representam instrumentos de proteção que fazem diferença na vida de milhões de brasileiros.

Não são benefícios dispensáveis. São conquistas sociais.

E aqui cabe uma reflexão: será que aqueles que estão vendendo a ideia de uma migração em massa para o Paraguai já fizeram as contas de quanto custa viver lá sem emprego, sem cobertura previdenciária e sem uma reserva financeira?

Ou estão apenas reproduzindo vídeos de pessoas que mostram supermercados, postos de combustíveis, restaurantes e imóveis, mas não apresentam a realidade de quem precisa trabalhar todos os dias para pagar as contas?

DA ILUSÃO À ROMARIA DOS DESILUDIDOS

Tenho a impressão de que, se essa fantasia migratória ganhar proporções maiores, poderemos assistir a uma situação curiosa.

Os voos da FAB, que buscam brasileiros desiludidos e submetidos a processos de deportação nos Estados Unidos, poderão, em uma comparação irônica, encontrar no futuro outro destino de preocupação: brasileiros que descobriram que o Paraguai não era exatamente aquilo que lhes prometeram.

E, como o Paraguai fica muito mais perto, talvez muitos daqueles que foram para lá de avião, automóvel ou ônibus acabem retornando a pé ao Brasil, atravessando a Ponte Internacional da Amizade, em Foz do Iguaçu.

Uma espécie de romaria de desvalidos, em sentido figurado, de pessoas que trocaram uma realidade conhecida por uma promessa que não se concretizou.

Uma imagem que lembra, guardadas as proporções e as circunstâncias completamente diferentes, a caminhada de milhares de venezuelanos que deixaram seu país em busca de sobrevivência em outras nações sul-americanas.

Afinal, migrar é um direito. Procurar melhores condições de vida também. Mas ninguém deveria tomar uma decisão dessa dimensão baseado em propaganda, desinformação ou comparações superficiais.

O Paraguai tem oportunidades. O Brasil também. Mas nenhum país transforma pobreza em prosperidade apenas porque fica do outro lado de uma fronteira.

Antes de fazer as malas, é bom conhecer o destino. E, sobretudo, saber de que maneira se pretende sobreviver nele.

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