Por: Dantas Filho
Enquanto o Amapá sedia mais uma edição de um importante projeto voltado ao empreendedorismo feminino, realizado em parceria entre o Sebrae e o Governo do Estado, centenas de mulheres acompanham, com indignação e tristeza, mais uma sequência de denúncias envolvendo a saúde pública estadual.

O evento, realizado entre os dias 23 e 25 de junho, trouxe a Macapá, entre inúmeras atrações, uma das atrizes mais conhecidas da televisão brasileira, Débora Secco, contando com ampla estrutura montada no auditório do Sebrae. Sem dúvida, trata-se de uma iniciativa relevante. O empreendedorismo é uma ferramenta legítima de transformação social, geração de renda e ampliação de oportunidades para mulheres que desejam conquistar autonomia financeira.
O evento, realizado entre os dias 23 e 25 de junho, trouxe a Macapá, entre inúmeras atrações, uma das atrizes mais conhecidas da televisão brasileira, Débora Secco, contando com ampla estrutura montada no auditório do Sebrae. Sem dúvida, trata-se de uma iniciativa relevante. O empreendedorismo é uma ferramenta legítima de transformação social, geração de renda e ampliação de oportunidades para mulheres que desejam conquistar autonomia financeira.
O problema não está no evento.
O problema está no contraste.

Na mesma semana em que palestras, homenagens e atividades de incentivo ao empreendedorismo feminino ocupam os holofotes, o recém-inaugurado Hospital da Criança volta a ser alvo de denúncias. Entre elas, relatos de infiltrações e chuva dentro da unidade, além da acusação feita por uma mãe que perdeu seu filho e atribui o ocorrido a falhas no atendimento.
Também na mesma semana, uma denúncia envolvendo a Maternidade Mãe Luzia chocou a opinião pública. Segundo relatos amplamente divulgados, uma jovem permaneceu por cinco dias com o bebê morto no útero, situação que somente ganhou encaminhamento após a mobilização de familiares, da imprensa e a intervenção do Ministério Público.
São histórias que não podem ser ignoradas.
São mães que carregam dores que não terminam com uma nota oficial nem desaparecem com o glamour de um evento.
É importante reconhecer que iniciativas de capacitação e empreendedorismo têm seu valor. Entretanto, é necessário também bperguntar: onde estão as políticas públicas de acolhimento para as mulheres que perderam filhos? Onde estão as equipes multidisciplinares de assistência psicológica, social e emocional para essas mães? Quem está ouvindo essas famílias?

O Amapá conhece esse sofrimento há anos.
Em 2016, só para citar um dos casos mais emblemáticos envolvendo a Maternidade Mãe Luzia ganhou repercussão nacional quando uma mãe denunciou que o corpo de seu bebê havia sido tratado como resíduo hospitalar e incinerado. Anos depois, a busca por reparação, justiça e respostas continua.
Infelizmente, os episódios não se limitam à maternidade.
A população também não esqueceu o caso de uma jovem grávida, de aproximadamente sete meses, que acerca de dois meses foi vítima de um acidente de motocicleta em Macapá. Segundo denúncias divulgadas à época, ela aguardou por longo período o atendimento do SAMU. O quadro evoluiu para complicações graves, culminando em sua morte. Mais uma tragédia que alimentou o sentimento de abandono vivido por muitas famílias.
Diante desse cenário, não se trata de ser contra eventos, palestras ou programas de incentivo ao empreendedorismo. Pelo contrário. O desenvolvimento econômico das mulheres deve ser estimulado e fortalecido.
Mas é impossível ignorar que existe outro grupo de mulheres que também precisa ser visto.
São as mulheres que choram nos corredores dos hospitais lotados sem atendimento, por horas, dias e até meses.
São as mães que enterraram seus filhos.
São as famílias que aguardam respostas.
São aquelas que não conseguem chegar a um auditório climatizado porque vivem longe, dependem de transporte precário, enfrentam jornadas exaustivas de trabalho e lutam diariamente para sobreviver.

Elas também merecem atenção.
Elas também merecem respeito.
Elas também merecem políticas públicas.
Mais do que inaugurações, campanhas publicitárias e grandes eventos, a população espera posicionamentos claros, investigações transparentes e providências concretas diante das denúncias que se acumulam na saúde pública estadual.
O empreendedorismo pode ajudar a transformar vidas.
Mas nenhuma política de desenvolvimento será completa enquanto mães continuarem perdendo seus filhos e permanecendo sem respostas.
O Amapá precisa cuidar das mulheres empreendedoras.
Mas precisa, sobretudo, não esquecer das mulheres sofredoras.