Por: Dantas Filho
Não é de hoje que o estado do Amapá enfrenta graves dificuldades em sua rede pública de saúde. Indicadores nacionais, como os levantamentos do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Ministério da Saúde ao longo dos últimos anos, frequentemente colocam estados da região Norte — incluindo o Amapá — entre os que apresentam menor disponibilidade de leitos por habitante, maior tempo de espera por atendimento e limitações estruturais no Sistema Único de Saúde (SUS).

Em momentos de maior pressão, como durante surtos de síndromes respiratórias agudas, esse cenário se agrava. A combinação de demanda elevada, infraestrutura insuficiente e dificuldades de gestão cria aquilo que especialistas em saúde pública costumam chamar de “tempestade perfeita”.

Enquanto isso, cresce a percepção de distanciamento entre o discurso oficial e a realidade enfrentada pela população. Se anúncios institucionais e inaugurações simbólicas resolvessem o problema, o Amapá já teria superado há muito tempo suas dificuldades. No entanto, o que se observa na prática são corredores lotados, pacientes aguardando atendimento e uma rede pressionada além de sua capacidade.
Entre os pontos mais sensíveis está a situação das unidades hospitalares estratégicas. O novo Hospital de Emergência estadual ainda não foi concluído, enquanto outras estruturas enfrentam entraves administrativos e operacionais.
Nesse contexto, ganha destaque o caso do Hospital Universitário da Universidade Federal do Amapá, cuja obra foi finalizada há anos, mas permanece sem funcionamento pleno.
Segundo declarações do delegado de Polícia Federal e pré-candidato ao governo, Marcos Reategui, o hospital chegou a operar de forma emergencial durante a pandemia de Covid-19, com cerca de 275 leitos ativados, contribuindo para o atendimento da população em um momento crítico.
Após esse período, entretanto, a unidade deixou de operar, e desde então não houve retomada de suas atividades em escala adequada.
A estrutura do hospital universitário é considerada estratégica. Estima-se que a unidade tenha potencial para cerca de 300 leitos, incluindo aproximadamente 60 de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Caso estivesse em pleno funcionamento, poderia não apenas atender o Amapá, mas também contribuir com a demanda de estados vizinhos da região Norte.
Especialistas apontam que a ativação de estruturas já concluídas costuma ser mais rápida e economicamente viável do que a construção de novos hospitais — especialmente quando há financiamento federal disponível.

O debate sobre a saúde pública no Amapá envolve também a definição de prioridades. Enquanto novas obras são anunciadas, estruturas prontas permanecem subutilizadas, levantando questionamentos sobre planejamento, gestão e aplicação de recursos públicos.
A principal consequência desse cenário recai sobre a população mais vulnerável, que depende exclusivamente do SUS. Para esses cidadãos, a demora na ampliação da capacidade hospitalar não é apenas um problema administrativo — é uma questão de acesso à vida e ao atendimento digno.
A crise na saúde pública do Amapá não pode ser tratada como episódica. Trata-se de um problema estrutural que exige respostas concretas, coordenação institucional e transparência.
A ativação de estruturas prontas surge como uma das alternativas mais imediatas e viáveis para ampliar o atendimento à população.
Mais do que discursos, a sociedade espera soluções efetivas — capazes de transformar a realidade dos corredores lotados em um sistema de saúde que funcione com dignidade, eficiência e responsabilidade.