EDITORIAL: QUANDO O CÉU BRIGA, O INFERNO FAZ FESTA

Da Redação

Nunca essa máxima popular fez tanto sentido quanto agora, diante da tensão estabelecida entre a OAB Amapá e a Secretaria de Estado de Segurança Pública, comandada pelo delegado César Vieira.

Antes de qualquer juízo precipitado, é preciso dimensionar corretamente os fatos — e não inflá-los como se estivéssemos diante de uma crise de proporções apocalípticas. Se houve um problema, que se identifique com precisão onde ocorreu eventual excesso, falha de comunicação ou interpretação equivocada. Nada além disso justifica o ruído amplificado que se observa.

Advogados e delegados não são adversários naturais. Ao contrário: integram o mesmo sistema, operam dentro da mesma engrenagem que sustenta o Estado de Direito. São, em essência, faces distintas de uma mesma moeda — a aplicação da justiça. E é justamente por isso que, quando há conflito entre essas instituições, quem se beneficia é o lado de fora: a criminalidade.

Secretário de segurança pública, delegado Cesar Vieira se vê em meio a uma crise inflada externamente com membros da OAB do Amapá

Convém lembrar que o delegado de polícia é, antes de tudo, um bacharel em Direito. Da mesma forma, inúmeros advogados trilham o caminho da segurança pública e tornam-se delegados. Essa interseção não é casual — ela revela a natureza complementar dessas funções. Se por um lado a advocacia é reconhecida constitucionalmente como indispensável à administração da justiça, por outro, a autoridade policial exerce papel central na preservação da ordem, com atribuições exclusivas e responsabilidade direta na condução de procedimentos que impactam a liberdade e a segurança dos cidadãos.

Isso exige respeito mútuo. Sempre.

É legítimo que advogados defendam suas prerrogativas — e, nesse ponto, é justo reconhecer que a OAB Amapá tem se notabilizado, como há muito não se via, por sua atuação firme em defesa do Direito, o que lhe garante crédito e respeitabilidade junto à comunidade. É igualmente legítimo que eventuais excessos sejam apurados. Mas não se pode, em contrapartida, condenar de forma açodada um servidor público de carreira, cuja trajetória é marcada pelo enfrentamento direto à criminalidade — muitas vezes com risco à própria vida.

No caso do Amapá, esse contexto ganha contornos ainda mais sensíveis. Trata-se de uma região com desafios estruturais relevantes: extensas fronteiras, vias fluviais abertas e vulnerabilidades que facilitam a atuação de organizações criminosas. Nesse cenário, a atuação firme da segurança pública não é um detalhe — é uma necessidade.

Por isso, mais do que nunca, é hora de moderação.

É preciso baixar a temperatura, afastar narrativas inflamadas e buscar um ponto de equilíbrio entre instituições que, no fim das contas, têm o mesmo objetivo: garantir a paz social.

Isso não significa ignorar eventuais erros. Pelo contrário. Significa tratá-los com responsabilidade, sem permitir que sejam instrumentalizados politicamente ou transformados em combustível para disputas que em nada contribuem para o interesse público.

Aliás, se há críticas a serem feitas no âmbito da gestão pública, que elas sejam direcionadas com critério e justiça. Há setores cuja inoperância salta aos olhos e que merecem escrutínio rigoroso. Mas é justamente por isso que se deve separar o joio do trigo.

E, nesse ponto, é inevitável reconhecer: dentro de um governo marcado por muitas promessas e entregas questionáveis, a condução da segurança pública tem se destacado. Não por ausência de falhas — que são inerentes a qualquer gestão —, mas pela presença de ação, compromisso e enfrentamento real dos problemas, sob a liderança do delegado César Vieira.

Dar a César o que é de César, nesse contexto, não é um gesto de blindagem. É um exercício de justiça.

Que a OAB Amapá siga com seus encaminhamentos institucionais, como deve fazer. Mas que o faça com serenidade, sem permitir que um episódio pontual seja capturado por interesses alheios à sua finalidade.

Conflitos institucionais acontecem. São, por vezes, inevitáveis. O que não pode acontecer é permitir que eles se transformem em rachaduras permanentes.

Porque, quando o céu briga, o inferno — este sim — faz festa.

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