Na política do Amapá tudo é possível:FOI CRIADO O NOVO TEMPO DOS VELHOS TEMPOS, QUE JÁ FOI TEMPO NOVO

Clécio plagiou a campanha de Marcos Reátegui?

Candidato da política no poder há décadas usa mote associado ao “novo tempo” da Democracia Cristã. Coincidência ou ato intencional?

Por Dantas Filho

Mal começou oficialmente a campanha eleitoral de 2026 e uma coincidência de linguagem já chama a atenção no cenário político do Amapá.

De um lado, o delegado da Polícia Federal e candidato ao Governo do Estado pelo Democracia Cristã (DC-27), Marcos Reátegui, apresenta uma proposta de ruptura com a política tradicional e associa sua candidatura à ideia de “Um novo tempo para o Amapá”.

Do outro, o governador Clécio Luís (União Brasil), que disputa a reeleição, aparece utilizando como mote de campanha a expressão “A força de um novo tempo”.

Coincidência?

Ou alguém percebeu que uma mensagem criada para representar uma candidatura de ruptura poderia ser apropriada — ainda que apenas no campo simbólico — por quem já ocupa o poder?

A pergunta é legítima, sobretudo porque a diferença entre os dois projetos de comunicação é justamente a narrativa que cada candidatura pretende construir.

Quem representa o “novo”?

O Democracia Cristã sustenta que Reátegui representa uma alternativa à política tradicional. Sua candidatura procura apresentar-se como uma ruptura com o modelo político que domina o Amapá há décadas, propondo uma nova agenda para o desenvolvimento do Estado.

Clécio, por sua vez, não é um estreante na política.

O atual governador foi vereador de Macapá, prefeito da capital por dois mandatos e, em 2022, chegou ao Governo do Estado. Em janeiro deste ano, filiou-se ao União Brasil, partido que no Amapá é comandado pelo senador Davi Alcolumbre.

Portanto, a disputa semântica pelo conceito de “novo tempo” ganha uma dimensão política evidente.

Para Reátegui, “Um novo tempo para o Amapá” pode ser interpretado como promessa de mudança, renovação e ruptura.

Para Clécio, “A força de um novo tempo” apresenta uma narrativa semelhante de renovação, mas parte de uma candidatura que já está instalada no poder.

É exatamente aí que a coincidência de slogans deixa de ser apenas uma questão de publicidade e passa a ter importância estratégica.

Na publicidade, palavras também ocupam território

Em marketing político, slogan não é apenas uma frase bonita.

Ele funciona como uma espécie de território mental. Uma expressão curta, repetida sistematicamente, procura associar determinada ideia a determinado candidato.

“Novo tempo”, “mudança”, “renovação”, “esperança” e “transformação” são conceitos disputados porque têm enorme capacidade de comunicação eleitoral.

Por isso, quando duas campanhas passam a trabalhar expressões semelhantes, o eleitor pode ter dificuldade para identificar quem originalmente construiu determinada narrativa — especialmente quando uma das candidaturas é nova na disputa e a outra já possui uma estrutura política consolidada.

É justamente essa possibilidade de confusão que estaria provocando preocupação entre pessoas ligadas à campanha de Reátegui.

A questão, portanto, não é simplesmente saber quem utilizou primeiro duas ou três palavras.

É saber quem construiu a narrativa, em que contexto e com qual significado político.

Plágio eleitoral: é crime usar slogan semelhante?

Aqui é preciso fazer uma distinção importante.

Não existe uma regra eleitoral que transforme automaticamente a utilização de um slogan semelhante ao de outro candidato em “plágio eleitoral”.

A legislação eleitoral regulamenta principalmente conteúdo, forma, identificação, período e meios de divulgação da propaganda. O TSE estabelece regras específicas para a propaganda eleitoral e para a igualdade de oportunidades entre candidaturas.

Além disso, a legislação protege a liberdade de manifestação do pensamento durante a campanha, mas impõe limites quando a comunicação ultrapassa o debate legítimo e atinge a honra, a imagem ou a integridade do processo eleitoral.

Há ainda uma questão distinta, relacionada ao direito autoral e à propriedade intelectual, que dependeria da análise concreta da originalidade da expressão, de eventual registro, da forma de utilização e do conjunto da campanha.

Ou seja: uma frase parecida, isoladamente, não permite concluir juridicamente que houve crime ou infração eleitoral.

Mas isso não significa que a questão seja irrelevante.

Politicamente, uma coincidência pode ser extremamente significativa.

O problema ético

É aqui que entra o princípio da ética na comunicação.

Uma campanha profissional deveria procurar construir uma identidade própria. Quanto mais uma candidatura investe em marketing, pesquisa, estratégia e criação, maior deveria ser a preocupação em produzir uma comunicação original e reconhecível.

Copiar deliberadamente uma ideia central de outro concorrente, se isso fosse comprovado, seria uma questão muito mais grave do que simplesmente utilizar uma expressão semelhante.

Seria uma questão de ética profissional e de estratégia política.

E existe uma pergunta incômoda:

Se a expressão “Um novo tempo para o Amapá” já estava associada publicamente a uma candidatura adversária, por que outra campanha decidiu utilizar também o conceito de “novo tempo”?

Pode ser coincidência.

Pode ser convergência criativa.

Pode ser uma expressão tão comum que diferentes equipes chegaram independentemente ao mesmo conceito.

Mas também pode ser uma decisão estratégica para ocupar o mesmo território semântico do adversário.

Somente a comparação cronológica dos materiais de campanha e a manifestação das respectivas equipes de marketing poderiam esclarecer a questão.

A política do velho tempo vendendo um “novo tempo”

O paradoxo é ainda mais interessante quando colocado no contexto político.

Clécio possui uma trajetória política consolidada e hoje ocupa o Palácio do Setentrião.

É justamente por isso que surge o contraste narrativo.

Se Reátegui tenta vender ao eleitor a ideia de que é preciso abrir um “novo tempo para o Amapá”, uma candidatura apoiada por uma estrutura política já consolidada precisa explicar por que também reivindica para si a ideia de um “novo tempo”, agora apresentada como “A força de um novo tempo”.

É a velha pergunta de qualquer campanha:

quem realmente representa a mudança?

A resposta, evidentemente, será dada pelo eleitor.

E há outro caso: Aline Serrão

A discussão sobre criatividade publicitária não termina no slogan do governador.


Para tentar a reeleição, o atual governador adota mote de campanha da força de um novo tempo, que é omesmo do atual mandato e semelhante ao slogan do plano de Marcos Reátegui 27 registrado no TSE.

Também circulam críticas relacionadas à comunicação eleitoral da deputada Alliny Serrão, presidente da Assembleia Legislativa e integrante do mesmo campo político de Clécio.

Segundo as críticas, peças de sua campanha apresentariam forte semelhança com uma campanha política desenvolvida em Pernambuco.

Aqui, novamente, é necessário separar a crítica política da comprovação factual.

Uma semelhança estética, narrativa ou conceitual não é, por si só, prova de plágio.

Para caracterizar efetivamente uma cópia seria necessário comparar as peças originais, suas datas de publicação, conceitos criativos, identidade visual, roteiro, texto, imagens e demais elementos protegidos eventualmente envolvidos.

Mas a comparação merece atenção porque existe um princípio básico no marketing: uma boa campanha deve ter identidade própria.

O paradoxo dos milhões e da criatividade

Existe ainda uma ironia nesse episódio.

Campanhas políticas movimentam recursos significativos e contratam profissionais especializados em publicidade, pesquisa, audiovisual, estratégia digital e comunicação.

Quanto maior a estrutura e o investimento, maior deveria ser a capacidade de produzir ideias originais.

Uma candidatura com poucos recursos, por outro lado, pode compensar a falta de dinheiro com criatividade, espontaneidade e inovação.

É exatamente esse contraste que os adversários de Clécio e Aline exploram.

A crítica é simples:

se campanhas menores conseguem criar uma comunicação própria, por que campanhas com estruturas profissionais maiores estariam recorrendo a conceitos já utilizados por adversários ou por campanhas de outros estados?

É uma pergunta de marketing.

É uma pergunta de ética.

E, sobretudo, é uma pergunta política.

O TSE e a disputa pela narrativa

Com o início oficial da propaganda eleitoral, as campanhas passam a estar submetidas às regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

O TSE estabelece normas para a propaganda eleitoral e busca assegurar equilíbrio e igualdade de oportunidades entre as candidaturas.

E há um detalhe importante para esta discussão.

Em julho, a Justiça Eleitoral do Amapá condenou Clécio Luís ao pagamento de R$ 25 mil por propaganda eleitoral antecipada, decisão da qual sua defesa informou que recorreria. Segundo a decisão noticiada, publicações nas redes sociais associavam a imagem pessoal do governador a obras e ações da administração e utilizavam jingles personalizados.

Isso não significa, evidentemente, que a utilização de um slogan semelhante ao de um adversário constitua a mesma infração.

São situações jurídicas diferentes.

Mas demonstra que a comunicação eleitoral de uma candidatura à reeleição já está sob escrutínio da Justiça Eleitoral.

Coincidência ou estratégia?

No fim, a pergunta permanece.

“A força de um novo tempo” é apenas uma coincidência com o “Um novo tempo para o Amapá” de Marcos Reátegui?

Ou a equipe de comunicação do governador identificou uma ideia que estava sendo utilizada por um adversário e decidiu incorporá-la à própria campanha?

Não há, até o momento, elemento público suficiente para afirmar que houve plágio deliberado.

Mas existe uma coincidência que merece ser registrada e discutida.

E existe uma questão estratégica que talvez seja ainda mais importante para o Democracia Cristã:

como fazer o eleitor perceber que o “novo tempo” de Reátegui não é apenas mais um slogan eleitoral, mas uma proposta de ruptura com o modelo político tradicional?

Essa poderá ser a grande batalha de comunicação da campanha.

Porque, se todos disserem que representam o novo, o eleitor terá de descobrir quem realmente é novo.

E, no Amapá, talvez essa seja a pergunta mais importante de todas:

um novo tempo pode ser construído por quem já está há anos na política — ou o verdadeiro novo tempo precisa necessariamente começar com quem chega para disputar o poder pela primeira vez?

A resposta não pertence aos marqueteiros.

Pertence ao eleitor.

E a urna, como sempre, dará a palavra final.

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